Você iniciou sua carreira no mercado financeiro. Como você avalia o papel que as mulheres cumpriram nesse espaço tão masculino nos últimos anos?
Mudou radicalmente de quando eu comecei a trabalhar para cá. Quando comecei, eram de fato mais de 90% de pessoas do sexo masculino. Eu era a única mulher na linha de frente no negócio, no escritório. Só tinha faxineira, recepcionista, secretária. Então, no negócio, eram só homens, num ambiente machista e pouco receptivo para mulheres. Na verdade, isso foi uma das coisas que me fez querer estar lá. O desafio de sobreviver em algo que não parecia feito para mim era uma motivação.
Como você se preparou para atuar neste tipo de ambiente?
Eu era um ‘bicho esquisito’, por assim dizer, em um mundo onde o mercado ainda normalizava as mulheres em funções não profissionais, para quebrar a reunião ou agradar o cliente. Eu tinha que cuidar da forma de falar, de reagir, de me vestir.
Eu não vivi isso diretamente, mas via também comentários sobre entrevistas onde diziam que tal pessoa ‘não é bonitinha’. Era difícil, mas eu queria mostrar que existia espaço para competência, independente de gênero. Fui galgando esse espaço por muito tempo, sem sofrer pelo ambiente, pois já sabia como era e me blindava.
Em que momento você verificou a presença de mais mulheres no mercado financeiro?
Na medida em que via mudanças acontecendo no mundo lá fora, via também o número de mulheres trabalhando comigo aumentar. No início, poucas mulheres sobreviviam ao mercado financeiro. Mas lentamente vi mulheres começarem a formar times e as empresas entenderem que a diversidade era boa, que o feminino trazia características complementares aos homens.
Da minha parte, fui responsável por aumentar o número de mulheres na empresa. Não era algo proposital, mas acho que na possibilidade de existir uma mulher contratando, as outras profissionais ficavam mais à vontade. Talvez eu tenha criado um ambiente menos machista no mundo em que eu vivia.
Como a maternidade influenciou sua visão de mundo e sua carreira?
Eu queria muito atuar no mercado financeiro, mas sempre quis ser mãe. Casei tarde para os padrões das minhas amigas, porque precisava garantir um espaço na profissão. Quando veio a maternidade, percebi as dificuldades da mulher em dividir vida pessoal e profissional. Entendi que as instituições não estavam preparadas para isso, especialmente para mães. Enfrentei caras feias por sair mais cedo para levar o filho ao pediatra.
Quando comecei, diziam para deixar a vida pessoal do lado de fora do escritório, mas com filho não dá, a escola liga o tempo todo, as coisas acontecem. Notei que outras mulheres passam por isso, mas não falam por não ter espaço.
Comecei a brigar por esse espaço para mim e no ambiente em que atuava. Não foi só uma luta pela mulher, mas para ter tranquilidade de ser mulher, ter família e trabalhar em igualdade de condições, brigando pelas mesmas oportunidades. Essa foi a minha virada de chave.
Como você percebe a questão das cotas e o feminino nas organizações?
Sempre achei que as mulheres deveriam conquistar seu espaço por competência, não por cota. Tinha uma visão fechada sobre a cota, não participava dessas discussões. Mas com o tempo comecei a ir a fóruns, corporativamente precisávamos estar lá. Mudei de ideia.
Continuei achando que a pessoa precisa chegar por mérito, mas vi a importância de dar voz para esses temas. Em alguns fóruns discordava do rumo das conversas, mas a maioria eram necessários para falar de oportunidade, respeito, diferença, sobre homens e mulheres no mercado.
Comecei a entender a importância de buscar intencionalmente o espaço para mulheres, de dar espaço. Aqui na empresa temos muitas mulheres e uma liderança feminina que por si só atrai e motiva. Mas acredito que as empresas precisam agir intencionalmente, pois o espaço ainda precisa ser conquistado. É cômodo não buscar, não mexer na cultura para mais mulheres ou licenças maternidade. Mudei de opinião quanto a essa intencionalidade.
Já vemos uma Opea mais diversa, com sotaques diversos, mistura racial maior, ambiente aberto à pluralidade das orientações sexuais. Mas ainda vejo um desafio porque o mercado externo é muito restrito, homogêneo. O diverso ainda choca. Temos que bancar essa inclusão de fora pra dentro com orgulho.
Quando você construiu a Opea e pensava nos valores da empresa, como toda essa percepção impactou no desejo de construir uma cultura diversa?
Impactou muito. A Opea nasceu como um spin-off de uma outra empresa, então já tínhamos uma subcultura dentro de uma cultura maior. Tínhamos particularidades que eu queria manter, como mais liberdade, mais humanização. Já tentávamos fugir do padrão do mercado financeiro, tipo todos homens de camisa azul e calça bege.
Quando ficamos 100% separados, foi uma libertação: a regra era nossa, podíamos criar nossa cultura. Ela começou por reconhecer as pessoas como indivíduos, tratando homens e mulheres em igualdade.
Essa cultura é de inclusão e abertura, por estarmos abertos para receber as pessoas integralmente. Achávamos que trabalharíamos mais felizes se cada um pudesse ser quem é e falar de forma franca.
A Opea dispõe atualmente de 48% de mulheres no seu quadro de funcionários. Para o futuro, o que vocês querem em diversidade?
Comemoramos esse número, mas ainda temos desafios. Por exemplo, quando olhamos para hierarquia, há maioria de homens no topo. Temos que formar e dar espaço para que mulheres cresçam e queiram estar em funções de maior pressão e poder. Ainda não estou 100% feliz com isso.
Quanto à diversidade geral, o desafio também existe. No gênero já fizemos muito, mas nos outros aspectos temos que avançar. Quebrar barreiras sociais, regionais, raciais. Já vemos uma Opea mais diversa, com sotaques diversos, mistura racial maior, ambiente aberto à pluralidade das orientações sexuais. Mas ainda vejo um desafio porque o mercado externo é muito restrito, homogêneo. O diverso ainda choca. Temos que bancar essa inclusão de fora pra dentro com orgulho.
Para terminar, que conselho você daria para a Flavia que começou no seu primeiro trabalho em securitização?
Diria que, mesmo sendo júnior, a opinião sobre certo e errado, sobre ética, tem peso igual. Não existe senioridade nisso. Com a técnica é diferente, a gente respeita mais quem é senior, mas na ética, não.
Acho que demorei para ganhar coragem de dar minha opinião em questões de comportamento no ambiente. Achava que tinha que me adequar porque era júnior. Talvez tivesse falado antes e me posicionado, e nem fosse algo mal recebido.
Digo que, mesmo chegando novo, se algo parecer errado, deve-se falar, pois ninguém é dono da razão, e ética não tem senioridade ou experiência.