Você veio de uma cidade pequena para São Paulo. Como ocorreu esse processo?
Nasci e cresci na zona rural no interior de São Paulo, numa cidade pequena de cerca de 2 mil habitantes, perto de Dracena, chamada Nova Guataporanga. A escola pública da minha infância não mostrava muitas perspectivas – mas eu sempre fui muito esforçada, e acho que me destacava nisso. Quando prestei vestibular, era mais para ver no que ia dar do que por certeza. Passei e fui a primeira da minha família a me formar. Fiz faculdade de Administração de Empresas pela UNESP em Tupã, uma cidade de 70 mil habitantes, e fiz estágio fora, em São Paulo, o que abriu minha cabeça para novas possibilidades.
Há quanto tempo você está em São Paulo?
Nove anos. Vim com 21 anos, logo após me formar. Foi um choque de realidade, não sabia andar de metrô, usava mapas impressos, morei em república, depois em kitnet. Foi um processo difícil, mas me estabilizei.
Nessa trajetória, conheci o meu noivo, que se tornou a minha família em São Paulo. Ele sempre esteve ao meu lado, me apoiando e acreditando em mim, e isso fez toda diferença.
Como foi o apoio da sua família em todo esse processo?
Tinha incentivo dentro do possível, principalmente da minha mãe, que foi fundamental. Meu pai, por proteção, queria que eu ficasse perto, não saísse da minha cidade, mas minha mãe me encorajou a ir para a faculdade. Foi ela que veio de cantinho, me chamou e disse para eu ir em frente. Foi ela que fez minha mala e me acompanhou até a rodoviária para eu partir para São Paulo.
Conta um pouco mais sobre a importância da sua mãe na sua história?
Minha mãe sempre me incentivou. Ela é representante de uma geração anterior, dona de casa no interior, com poucas oportunidades. Mas ela me passou coragem e força para conquistar meu caminho. Mesmo enfrentando dificuldades após a morte do meu pai, ela voltou a estudar, trabalha hoje como negociadora de crédito e é destaque no mercado, o que mudou a vida dela. É uma inspiração.
Você estudou Administração, mas hoje trabalha com tecnologia. Como aconteceu essa transição?
Durante a universidade, meu primeiro estágio foi com controladoria. Depois, passei como trainee em uma multinacional que atuava em auditoria e consultoria – eu auditava negócios e TI. Acabei gostando da parte de tecnologia e, depois de um tempo, fui convidada para trabalhar na Opea, onde atuo até hoje com tecnologia.
Ter coragem e seguir em frente, acreditar que pode dar certo, mesmo que seja só uma tentativa. Isso vale para todas as mulheres. É possível, não importa o ponto de partida. A coragem para mudar sua realidade é fundamental.
Como é ser mulher e atuar em tecnologia?
Mulher tem que se provar todo dia, no trabalho não é diferente. É necessária uma coragem extra, pois o mercado é predominantemente masculino e, muitas vezes, com lideranças mais velhas em tecnologia.
Tive que criar estratégias para lidar com esse cenário, em reuniões com a maioria masculina discutindo temas complexos. Nunca foi fácil, especialmente no início, quando me sentia intimidada, mas sempre tive certeza de que ia dar certo e isso me motivou.
Além disso, a Opea é um ambiente onde a representatividade feminina acontece na prática, com uma CEO mulher. Isso mostra que é possível ocupar posições de decisão e influência. Esse tipo de exemplo abre caminhos e dá confiança para que mais mulheres sigam.
O topo ainda é um lugar com poucas mulheres. Mas cada uma que chega, abre espaço para que outras também subam.
O que mais te encanta no seu trabalho?
O poder de transformar a vida das pessoas pela tecnologia, facilitando processos e tornando o trabalho menos manual e mais analítico.
Que conselho você daria para sua versão mais jovem, da época do vestibular?
Ter coragem e seguir em frente, acreditar que pode dar certo, mesmo que seja só uma tentativa. Isso vale para todas as mulheres. É possível, não importa o ponto de partida. A coragem para mudar sua realidade é fundamental.