Selo Atena

Conheça Mariana Gorski

A única forma de existir

A advogada Mariana Gorski relembra sua trajetória marcada por uma família de mulheres e destaca os caminhos para o avanço das mulheres no mercado financeiro.

Eu sou de Itapeva, interior de São Paulo. Sempre tive uma estrutura familiar que me permitia sair de casa para fazer faculdade, mas minha escolha pelo Direito, nunca foi óbvia, meu jeito de ser fazia as pessoas dizerem que eu deveria ser advogada, acho que porque sempre gostei de ler, então as pessoas falavam isso. Saí de casa aos 17 anos para estudar, optei por faculdade pública fora. Fiz vestibular para Psicologia, Fisioterapia, mas passei em Direito no Paraná e decidi seguir. Não foi uma escolha muito racional, apenas deu certo com o meu perfil.

Minha família materna é de muitas mulheres, todas muito trabalhadoras, nenhuma com carreira acadêmica, mas todas muito independentes. Nunca foi uma limitação estudar ou morar fora por ser mulher e sempre fui incentivada a isso, pelas mulheres da família. Meu irmão saiu de casa antes de mim e não houve diferenciações. Minha mãe, sempre trabalhadora, é inspiração para mim, mostrando que o caminho para as mulheres era e é sempre possível, mesmo que difícil.

Quando me formei, passei na OAB no final da faculdade e voltei para Itapeva. E aí, olha só, foi justamente uma mulher, sobrinha do meu pai, que me ajudou a conseguir um emprego em São Paulo. Consegui o trabalho e nunca mais fui embora.

Foi caótico (risos). No começo, me chamavam de caipira por causa do sotaque. Morei com um primo e achei que a cidade ia me engolir, porque nunca tinha vivido aqui. Eu vinha raramente, não conhecia lugares comuns, tinha medo de passar vergonha e tentava aprender tudo sozinha antes de perguntar. Com o tempo, as coisas foram se transformando. Pra ficar por aqui, quando você não conhece ninguém, você tem que fazer amigos, porque se estiver sozinho, as coisas ficam muito mais difíceis. Depois de um ano, meu salário era bem baixo e fui conversar com a minha chefe, que deixou claro que achava que eu ia desistir antes, mas, como eu disse, eu só fiquei porque fiz amigos.  

Foi surreal, nunca tinha trabalhado no mercado financeiro, não sabia nada de securitização. Trabalhava com contencioso, principalmente Direito do consumidor. Na pandemia, estava desanimada e procurei emprego. Me candidatei para uma securitizadora, que acabou depois sendo adquirida pela Opea, e cá estou. Com o passar dos anos, já mudei de escopo, dentro do jurídico, mas procuro sempre aprender e me reinventar com as demandas.

Na minha vivência, há duas formas para que isso ocorra: a natural e a intencional. No primeiro caso, os times se formam com maioria de mulheres sem intenção, como é o caso do Jurídico da Opea. No segundo, há a intenção de dar espaço às pessoas certas no momento certo, sem discriminar por gênero. É difícil conquistar espaço no mercado financeiro sozinha, então tem que haver apoio entre as mulheres.

Há diferenças sutis. No mercado financeiro, em reuniões, eventos, geralmente há poucas mulheres. Para um homem, é só mais um dia, para uma mulher isso é evidente. Minorias veem essas diferenças mais claramente.

Para mim, ser mulher é minha única possibilidade de existir. Acho que não conseguiria ser outra pessoa. Meu traço mais feminino é a busca pelo autoconhecimento, tento sempre prestar atenção nas minhas emoções, para fazer delas uma constante busca pela evolução pessoal. Para mim, esse desejo de evolução é a minha característica mais feminina.

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